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Preconceito não rima com carnaval

A maior festa de rua do mundo, isso mesmo, não só do Brasil, cada vez mais vem ganhando o respeito e a admiração das pessoas com deficiência, seus familiares amigos e profissionais que atuam a favor da inclusão, da diversidade e do respeito à diferença.

Essa afirmação é positiva e pode ser confirmada ao se constatar o aumento gradativo, não só das ações inclusivas com as pessoas com deficiências nas brincadeiras de carnaval, mas, também ao trazer o assunto para dentro dos blocos, escolas e grupos carnavalescos.

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Em todo o Brasil pode-se ver ações de acessibilidade em vários movimentos carnavalescos.

No Rio de Janeiro os blocos Eficiente, Tá Pirando, Pirado, Pirou!, Senta que eu empurro!, realizam há alguns anos a celebração à diversidade. Em São Paulo o Bloco do Pedal, formado por ciclistas teve a participação da bateria Tom Bom, constituída só por pessoas com deficiências. O Vibra Mão é outro bloco paulista, este, dedicado a pessoas dom deficiência auditiva, o Bloco “Sim Fodemos!” provoca a sociedade de forma lúdica levantando o tema da sexualidade e deficiência, mas, uma ação que chama a atenção em São Paulo e deveria ser copiada, ocorre durante os desfiles das escolas no Sambódromo do Anhembi. Surdos podem acompanhar os desfiles através de tradução em libras, dos samba enredos em telões espalhados na avenida e para os cegos há a áudio-descrição de toda a movimentação das escolas.

Em Belo Horizonte há vários blocos inclusivos e muitas ações de acessibilidade durante o carnaval da capital mineira.

No dia 03/02/2018 aconteceu o 12º Grito de Carnaval do Bloco APAE Folia que contou com a participação da Apaetucada, a bateria formada por pessoas com deficiência atendidas pela instituição. O Bloco Chama o Síndico deu um show de civilidade, acessibilidade e respeito, ao inserir em seu desfile o Sindicato Inclusivo. Na quarta feira dia 07/02/2018 o Bloco Chama o Síndico desfilou na Avenida Afonso Pena e o Sindicato Inclusivo foi o responsável pela abertura do desfile do bloco. Os presentes puderam vivenciar um acontecimento incrível, centenas de milhares de foliões que se renderam ao som e carisma contagiantes dos integrantes do Sindicato Inclusivo. O musicoterapeuta e psicólogo, Bruno Lima, o “Titio”, um dos fundadores do Sindicato, afirmou que experimentou um sentimento de realização de um sonho coletivo, que ele traduziu no trecho da música de Raul Seixas: “Sonho que sonha só, é só um sonho que sonha só, mas sonho que sonha junto é realidade”. Realidade que segundo “Titio”, foi possível graças ao apoio da Banda/Bloco Chama o Síndico, e ao ser indagado sobre a apresentação no dia do desfile ele concluiu: “Me emocionei bastante, superou todas as minhas expectativas, ao ver a aceitação de todo o público, de toda a bateria, de toda a banda e ainda presenciar a felicidade de todos os pais e todos os participantes, que se refletiu no brilho do olhar de cada um, transmitindo a possibilidade e a perspectiva de valorização pessoal e da auto-estima. Isso foi maravilhoso e realmente muito emocionante”.

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No dia 11/02 foi o dia do desfile do Bloco Todo Mundo Cabe no Mundo, idealizado pelo artista plástico cadeirante Marcelo Xavier, que conta: “A iniciativa surgiu depois que passei a ser cadeirante, percebi que essa parte da população ficava de fora da festa. Faltava algo que os inspirasse a sair de casa e não sentirem-se excluídos”. O advogado Marcos Ribeiro deu um depoimento emocionado sobre o bloco: “Minha esposa e eu peregrinamos, no maior número de blocos possível a seres humanos com mais de 30 anos de idade, mas de todos os blocos, o que me fez apaixonar foi o “Todo Mundo Cabe no Mundo”, que desfilou na Savassi, sábado a tarde. Não tem a fama, o glamour dos outros, e nem atrai os milhares de foliões, mas é um grupo de inclusão social, com crianças com síndrome de down , e autistas na bateria, cadeirantes, pessoas com paralisia física e mental, alegres e inclusos como devem ser. E o folião que sempre fui, pela primeira vez chorei de alegria, e essa emoção me fez reforçar algo que eu felizmente, já havia concluído: se existe alguma deficiência das pessoas é na alma, e não física ou mental, e que todo preconceito de qual natureza for, é filho da ignorância”.

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Ainda em Belo Horizonte a instituição Crepúsculo – Centro de Desenvolvimento Humano, pelo quarto ano colocou seu bloco na rua, ou melhor, na praça. Há quatro anos, toda quinta feira que antecede o carnaval o Crepúsculo desfila o Bloco Ai Papai, e este ano não foi diferente. No dia 08 de fevereiro, o Bloco Ai Papai, às 15 horas, deu início à farra de carnaval. A Praça Borges da Costa, localizada no Bairro Prado, em BH/MG, se transformou no palco de alegorias, fantasias, marchas de carnaval, muito entusiasmo e alegria. Ao som da batucada formada pelos amigos do Bloco Chega o Rei, os participantes do Crepúsculo caíram na folia. Este ano com uma novidade, o Bloco Ai Papai, ganhou a sua marchinha oficial, “A Chama do Crepúsculo”, composta por Marcos Fabrício, poeta e doutor em literatura e jornalismo. A letra da música retrata a realidade da instituição.

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Essas aberturas são apenas o primeiro passo que a sociedade está dando para a real inclusão, que tem que ser conquistada e concretizada de uma forma ampla, com uma via de mão dupla onde a diferença não seja uma limitação.

Por Elmo Gomes