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TODO MUNDO TEM LIMITAÇÕES – Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

Trago em meu socorro o músico e filósofo Raul Seixas, na canção Metamorfose ambulante (1973), para chegar a esta definição: deficiência é “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. No panorama da confusão, tornamo-nos incapazes de alterar a marcha do terrível processo dúbio “integrador e desintegrador”, e os seres humanos tornam-se marginais à construção social desejada. O mal-estar provoca nosso isolamento, cegando a nossa aderência ao mundo. Atrás da máscara da alegria esconde-se uma crescente incapacidade para o verdadeiro prazer. Ao mesmo tempo, sob a imperiosa necessidade de se dizer feliz e de ter prazer a qualquer preço, encontra-se a cultura de repressão, do individualismo, da imposição, do consumo, do estereótipo, do fingimento e da sua companheira indissociável: a solidão. É a paixão de Narciso que nada pode enxergar além de si e para si. Isto é o que se convencionou chamar perigosamente de normalidade. O que é normalidade? Sem esgotar a questão, tomarei emprestado uma passagem do livro O reflexo de Tânita (1989), de Celi Oliveira Freitas, para sugerir que a normalidade acontece na seguinte situação: “costumo achar que no mundo devia ter pelo menos meio minuto em que todos os seres humanos estivessem pensando e sentindo a mesma coisa”. A inexistência de paradigmas de consenso desumaniza e ameaça implodir a convivência dos homens, a vida em nosso planeta. A Terra não aguenta mais o improviso de uma ética oportunista sem limites e sem diálogo, sobretudo quando as relações sociais, na sua microfísica, carecem de uma agenda comum que nos referencie a responsabilidade coletiva com a vida. Cabe também salientar que toda totalização, porém, não vale nada se precisamente não está inscrita a presença da divisão, da oposição ou da “presença da guerra”, como salienta o psicanalista Pierre Fédida, em A negação da deficiência: a instituição da diversidade (1984). Guerra aqui entendida como conflito e como confronto. A respeito, Fernando Pessoa, em Livro do desassossego, sublinhava poeticamente: “Eu sou o intervalo entre meu próprio desejo e o que os desejos de outros fizeram de mim”. Isso nos faz melhor compreender esse “outro” deficiente e diferente, que somos e em que estamos: “e a percepção da deficiência do outro supõe de nossa parte a experiência interior de nossos limites, o conhecimento operatório do que eu chamaria nossa própria deficiência”, avalia Fédida. Em outros termos, com sabedoria lúdica, bem explica o Crepúsculo: Centro de Desenvolvimento Humano, em Todo mundo tem limitações (2016), canção composta por Gustavo Bartolozzi (letra) e Wilson Souza (música): “Todo mundo tem limitações/Todo mundo tem limitações/O super-homem, o rei e a rainha/Também têm limitações/Papai, mamãe e o namorado da vizinha/Também têm limitações/Tem quem não use os pés pra caminhar/Quem mesmo ouvindo não saiba escutar/Não fale com a boca e quem não tenha o que falar/Quem não voe com seus corações/Todo mundo tem limitações/Todo mundo tem limitações/O Mickey Mouse, Cascão e Cebolinha/Também têm limitações/O marceneiro e o almirante da marinha/Também tem limitações/Tem quem não veja em quem já vai pisar/Quem não acorde com vontade de cantar/Não veja no outro um motivo pra abraçar/Não se sinta de todas as nações/Todo mundo tem limitações/Todo mundo tem limitações/O doutor, o juiz e o chefe de cozinha/Também têm limitações/Saci, Emília, Peri, Macunaíma/Também têm limitações/O super-homem e o almirante da vizinha/Também têm limitações/Papai, mamãe, Cascão e Cebolinha/Também têm limitações”. Do “ser-ninguém” ao “ser-pessoa”: o lento reconhecimento da condição humana engloba, como tudo, uma questão de valores, atitudes e modelos de desenvolvimento. É chegada a altura de substituirmos os valores meramente economicistas do êxito individual e do rendimento competitivo no trabalho, pelos valores da cooperação, da entreajuda, da solidariedade e do calor da afetividade. À uniformidade temos de opôr a diversidade; à exclusão temos de opôr a participação; ao antagonismo temos de opôr a complementaridade; aos conflitos étnicos, o interculturalismo; à segregação, a integração; à lógica do lucro, a lógica da realização do homem; à exploração, a cooperação; à intolerância, a tolerância; à xenofobia, o respeito pela diferença; à lógica do eu e o outro, a lógica do eu e o outro, ou melhor, do eu com o outro. Sobre o referido assunto, assertivo foi o escritor e jornalista Frei Betto, no texto “Deficiente é a sociedade” (O Globo, de 18/07/2016): “Há palavras e expressões que, com o tempo, desabam do paraíso ao inferno. São rejeitadas pelo crivo implacável do politicamente incorreto. Porque estão impregnadas de preconceitos. Na minha infância, chamava-se aleijado quem tivesse uma deficiência física que lhe dificultasse a mobilidade. Depois, deficiente físico. Em seguida, portador de deficiência física. Mais tarde, pessoa portadora de necessidades especiais. Ora, toda a terminologia do parágrafo acima recai sobre a caracterização do indivíduo, quando deveria caracterizar a sociedade. Ela é a deficiente, pois torna esse indivíduo um ser com dificuldades de interação e integração, em especial quando lhe faltam equipamentos sociais que lhe facilitem atividades e mobilidade”. O comentário em destaque está em sintonia com a amadurecida Declaração de Salamanca (1994). Naquele documento orientador de políticas e de ações de inclusão educacional e social de Todos, do qual o Brasil é signatário, existe um divisor conceitual, digno do melhor reconhecimento prático: “deficiência não é um conceito neutro que descreve corpos com impedimentos, mas o resultado da interação do corpo com impedimentos com ambientes, práticas e valores discriminatórios”. A educação inclusiva de verdade se faz com uma sociedade mais justa e igualitária, na qual todos possam existir sem sofrer preconceito e discriminação. Incluir é uma responsabilidade social de grande valor ético.   * Professor das Faculdades JK e Ascensão, no Distrito Federal. Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela UFMG. Graduando em Letras pela UnB